Porto do Açu: uma avaliação pela ótica do emprego

O número de pessoas ocupadas, com carteira assinada, em São João da Barra aumentou de 3.994, em 2006, para 8.426 em 2011, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Tal evolução representa um crescimento de 110,97% no período. O gráfico mostra esta evolução desagregada por setor de atividade, onde o investimento na construção do porto do Açu mostra a sua importância no processo. O emprego no setor de construção civil, base dessa primeira etapa, cresceu 903,20% e impulsionou um crescimento de 210,12% no setor de serviços. É importante relacionar essa evolução aos esforços de investimento privado no projeto portuário, cuja cifra já chegou nos R$ 3,0 bilhões, sem esquecer que o orçamento público do município, perto de meio bilhão, é invejável por conta da grande participação de royalties de petróleo.
Entretanto, nesse mar de recursos, observa-se que o emprego no setor agropecuário caiu 32,06% e a indústria de transformação perdeu 23,59% do emprego em 2011, comparativamente ao ano 2006.
Teoricamente, todo esse processo de mudança no território, onde se verifica a presença de aproximadamente 40 empresas em operação na retroárea do porto do Açu, uma movimentação substancial de veículos e pessoas em direção ao município, deveria apresentar reflexos mais representativos ao sistema econômico local. Parece que tal fato não ocorre, pois o emprego no comércio cresceu somente 49,04% no período de 2006 a 2011 e a movimentação econômica, levando em consideração o valor adicionado fiscal, pouco evoluiu. O índice de participação no ICMS de 2008, calculado pelo valor adicionado fiscal do ano de 2006, foi 0,437 e o mesmo índice para 2013, calculado pelo valor adicionado de 2011, foi de 0,489. Um crescimento inexpressivo, considerando todo o processo de transformação que está ocorrendo no município. Mais complicado fica ainda a situação, se considerarmos os diversos impactos (sociais, ambientais, culturais, etc) de natureza negativa. Parece que a idéia relacionada a "maldição dos recursos naturais" está muito presente nesse processo.

Comentários

  1. Olá Alcimar,

    Esta análise é importante de ser acompanhada.

    Sem querer fazer o contraditório, e sim, aprofundar a análise há alguns pontos a serem observados:

    1 - A análise da dinâmica econômica em SJB deve observar além do valor adicionado fiscal. O PIB, mesmo que de levantamento mais complexo de demorado é um indicativo complementar. Um outro seria do número de novas empresas criadas. Pelo levantamento da Jucerja, em 2012, SJB teve mais de 500 empresas criadas, contra cerca de 180 (no 2º semestre) de 2011, portanto um acréscimo.

    2 - Sobre sua última observação dos riscos da maldição mineral, acho que ela vale para todos os municípios que recebem royalties como produtores. No entanto, o fato da instalação de um complexo logístico-industrial, mesmo, que ele esteja cada vez mais voltado para a cadeia do petróleo & gás, há, sobre a questão da não geração de tantos empregos quanto imaginados e na migração do nº de empregos a agropecuária para a construção civil e outras, parece que a análise seria da velha observação sobre a capacidade em gerar empregos através de grandes ou de pequenos empreendimentos (ou ainda a análise exógenos x endógenos), embora, sob o primeiro, tenderia a ocorrer, apenas num médio prazo uma capacidade maior de arrasto.

    3 - Também, não podemos deixar de fora da análise (embora de difícil pesquisa, identificação e registro) os empregos gerados pelo empreendimento do Clipa, mas registrados fora do município, nas sedes das empresas de fora que estão sendo contratadas para construção e montagem do porto.

    4 - Quanto aos impactos de toda a ordem sobre o território, só políticas bem estruturadas, regulação e integração poderiam tentar reduzi-las.

    Abs.
    Roberto Moraes

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  2. Meu amigo Roberto Moraes, quero agradecer as excelentes contribuições ao texto sobre a análise do emprego do Porto do Açu. Você tem razão sobre uma necessária amplitude da análise. Eu diria que hoje já temos um conjunto de dados e informações para o aprofundamento que você se refere, aliás, você muito bem sinalizou para a possibilidade de um artigo científico sobre a questão.
    Quanto a análise específica no blog, na verdade esse tipo de rede social nos limita em termos de espaço, pois corremos o risco de cansar o leitor. Por outro lado, o objetivo da análise foi concentrar, especificamente, no quantitativo do emprego e seu cruzamento com outro indicador para, mesmo de forma limitada, poder responder a pergunta que tanto nos aflige. “Afinal, os robustos investimentos do Porto do Açu tem provocado uma maior dinâmica na economia de São João da Barra”? Neste caso, acredito que o melhor indicador seja o Valor Adicionado Fiscal, já que a movimentação do PIB não compatibiliza a efetiva geração de riqueza na economia local, tendo em vista a sua contaminação com as rendas da atividade petrolífera que ocorre no mar. Por outro lado, o processo de coleta das informações que dá origem ao PIB apresenta algumas dificuldades operacionais, diferente do valor Adicionado que é resultado da captação obrigatória das informações sobre a riqueza adicionada pelas empresas formais no município anualmente, através do DECLAN. Neste caso, a informação mais atualizada refere-se ao ano de 2011.
    Sobre a questão relacionada à “maldição dos recursos naturais”, parece que é consenso a visão de que investimentos densos em tecnologia, assentado em recursos naturais, gera um padrão de riqueza que não beneficia o espaço ocupado, segundo as expectativas. Parece seguir a lei centro – periferia, onde a riqueza gerada na periferia segue para os centros desenvolvidos, exatamente pelas fragilidades do território periférico. Realmente, não é um problema específico do porto e nem de São João da Barra. Não tenho dúvidas de que o resgate a Celso Furtado é imprescindível, no que diz respeito à busca do desenvolvimento regional por estratégias endógenas (desenvolvimento, diferente de crescimento).
    Enfim, pretendo chamar a atenção sobre a real possibilidade desse espaço afetado por investimentos exógenos, absorver as externalidades positivas geradas pela presente aglomeração. Esse processo não será automático e ai meu amigo, você tem toda razão; a inserção do território depende de políticas bem estruturadas, regulação e integração entre os atores e agentes locais.
    Um grande abraço

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  3. Concordo que a análise é sempre limitada, no intuito de incluir mais debatedores, que passam pelas questões, mas, muitas vezes, não pretendem ir mais a fundo em sua compreensão.

    A pesquisa intensa não apenas pelos dados e indicadores econômicos e sociais, mas, também, diretamente com alguns dos envolvidos nos dará pistas interessantes sobre este singular processo neste momento histórico.

    Aprofundemos as análises e debatamos.
    Abs.

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  4. É verdade Roberto, acho fundamental cruzarmos as nossas visões sobre esse importante processo que muda radicalmente a região. Neste momento é essencial discutirmos sobre os gargalos que impedem a absorção das externalidades positivas, além das estratégias que que possam restringir as externalidades negativas.
    Abraços

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