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Análise do setor sucroalcooleiro pelo economista Ranulfo Vidigal.

"Embora nossa região venha recebendo nos anos mais recentes uma safra de investimentos produtivos em infraestrutura portuária, indústria naval, rede hoteleira e outros serviços nós não podemos desconsiderar a importância do setor sucro-energético na geração de renda e emprego nos principais municípios do norte fluminense.
Os dados do CAGED de emprego com carteira assinada de trabalhadores contratados para a lavoura canavieira ou para as unidades industriais remanescentes nos revelam um contingente de quase cinco mil trabalhadores, cujo salário médio gera uma circulação de demanda por produtos e serviços de primeira necessidade da ordem de mais de sessenta milhões de reais, em 2010.
A previsão de moagem de 2,6 milhões de toneladas representa uma renda agrícola superior a 150 milhões de reais para o ano corrente para pequenos médioas e grandes agricultores do NF, com geração de impostos e circulação de uma riqueza tradicional, embutida na cultura do nosso lugar.
Diante da grandiosidade, bem como da característica do nosso Estado ser importador de etanol e da nova fase, com a chegada do Grupo Canabrava inovando no campo do aproveitamento do bagaço de cana, os desafios para o futuro da indústria do agronegócio do açúcar, do álcool e da energia passam necessariamente por um choque de produtividade na terra e na manufatura, o que representa a busca da recuperação da capacidade de captar de recursos de longo prazo nas agencias de fomento, pela modernização de suas relações trabalhistas, respeito à legislação ambiental e fortalecimento dos investimentos em tecnologia agrícola e gerencial.
Em termos fiscais, a grande vantagem do Grupo Canabrava, se encontra na aprovação do diferencial de ICMS (uma alíquota que cai de 24 por cento para apenas 2 por cento), cuja aprovação beneficia também a futura planta de Quissaman. O desafio do grupo é reverter o quadro histórico de baixa produtividade do plantio, que atualmente é de apenas 50 toneladas por hectare, metade do alcançado no próspero Estado de São Paulo.
Uma das alternativas sugeridas pelos especialistas em sustentabilidade e economia verde supõe a escolha da bioenergia oriunda da cana de açúcar, como um bom substituto do alto teor de carbono embutido nas fontes energéticas não renováveis".

Ranulfo Vidigal- mestre e doutorando em políticas públicas, estratégias e desenvolvimento pelo Instituto de Economia da UFRJ.

Comentários

  1. Prof., posso dizer que nasci no meio dos canaviais - e há uns duzentos anos, já me disseram.

    Meu pai, num projeto pioneiro de irrigação, nos anos 70, escreveu que plantava cana por uma "fatalidade gênica". Então ele tinha que modernizar, melhorar a produtividade. Mas se existe mesmo esse determinismo, sabemos também que existem mutações, existe a capacidade de quebrar, de romper, de nos livrarmos dos mais básicos, dos mais profundos condicionamentos, idéias preconcebidas, medos, inseguranças e assim, quem sabe, teríamos condição de chegar a uma visão mais clara dos acontecimentos, dos fatos, do presente.

    Dizer que só sabemos isso, só podemos aquilo, que é só melhorar um pouco, se torna uma desculpa confortável pra quem quer adiar, postergar, prolongar a agonia de um fim que já está se apresentando como inevitável.

    Agora, pode neste momento em que até usinas no centro-sul, estão paradas, algumas à venda, querer colocar dinheiro público num negócio de risco, mesmo alardeando boas intenções, que vai melhorar a produtividade baixíssima, a menor do Brasil?

    Gostaria de ver nosso dinheiro público investido em infra-estrutura para irrigação, estradas agrícolas, escolas agrícolas, diversificação... A região importa alimentos, mas não devia precisar. Aqui não chove, mas tem água, muita água, e tem terras planas, férteis, boas para qualquer agricultura.

    Vejamos a Coagro: olhando o perfil dos fornecedores de 2005/6, vemos que os 6 mil menores fornecedores produziram juntos, aproximadamente 1/3 do que os 6 maiores forneceram. Esses 6 mil, eles são 71% dos fornecedores, teriam lavouras de menos de 1 ha em média, fornecendo menos de 9% da cana moída na usina.

    Resumindo, é como meu pai dizia aos 8 filhos: lavoura de cana é pra quem tem muita terra, vocês tratem de estudar!

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  2. Vitor, concordo plenamente com contigo. Entretanto, tenho defendido a idéia de que abandonar o cultivo da cana não é a melhor alternativa. O tradicional modelo de organização produtiva que orienta o setor não permite um padrão competitivo adequado para a região, tendo em vista os gargalos que você muito bem citou. Defendo o cultivo da cana como insumo para negócios criativos, inovativos e de alto valor agregado, portanto, com a inserção do conhecimento, redes de empresas e um processo de coordenação institucional (alternativa a coordenação de mercado). Neste caso, atores como: universidade, centros de pesquisa, governo, sindicatos e outros organismos civis, deveriam atuar no sentido de potencializar o setor. Um exemplo importante é o setor vinícolo em Caxias do Sul e outros exemplos na serra do Espirito Santo.
    Obrigado pelas suas brilhantes intervenções. Abraços

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  3. Desculpe, professor, mas não estou falando no abandono total do cultivo da cana. Apenas gostaria de ver agora mais gente falando, estudando e investindo em alternativas de culturas mais interessantes, principalmente para pequenas áreas. Obrigado, Vitor

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  4. Vitor, algumas pessoas defendem o abandono do cultivo da cana,visão a qual eu discordo. Entretanto, você tem razão sobre a busca de outras culturas. Agora o problema, insisto, está na organização da produção e não no cultivo propriamente dito de qualquer cultura. É preciso considerar as limitações dos produtores rurais, individualmente, ou seja, escala, custos de transação, etc. A saida está na integração produtiva no território (ação coletiva), na formalização de cadeias produtivas e coordenação institucional (empresa - governo - universidade).

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  5. Professor, realmente, o nivel formal de educaçao é muito baixo na area rural. E isso se reflete na capacidade de comunicação que seria fundamental para a formação das redes voltadas para todos os elos da produção. Mas acho que existe, vejo, uma grande afetividade, um grande gosto pela vida simples no campo. Acho que nós, letrados, poderíamos se quisermos entender a língua deles, o tempo deles - o timing rural, diferente do ritmo acelerado da cidade. Acho que eles tem muito conhecimento natural, empirico, oral, que precisa ser valorizado. Muito obrigado pela atenção, professor

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  6. Perfeita a sua visâo Vitor. Quando falo da coordenação institucional, estou olhando para esses recursos em suas formas tangíveis e intangiveis. Nesse mundo global, vale muito a cultura local,o senso de pertenciamento, a confiança entre os atores, o conhecimento prático que, integrado ao conhecimento formal, gera novos conhecimentos. Enfim, esse arcabouço constitui o capital social que é a base para a cooperação e a reciprocidade, fatores que alavancam a competitividade dos negócios.

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