Entendendo o Novo Ciclo Econômico em São João da Barra Através do Contexto Histórico

O município de São João da Barra vivencia o seu segundo ciclo de crescimento econômico com o advento do complexo portuário do Açu, em construção há três anos. Nos dois momentos ocorreu o que podemos classificar de “acidente histórico”, capitaneado por uma vantagem de localização baseada em recursos naturais, mais especificamente, o Rio Paraíba do Sul e Oceano Atlântico, consecutivamente.

Outras coincidências são importantes, no entendimento do processo evolucionário da presente aglomeração industrial. No início do século XVIII, as dificuldades para transportar mercadorias até os mercados mais importantes e a viabilidade técnica de uso do Rio Paraíba do Sul, qualificaram São João da Barra como base logística para os produtos das regiões norte e serra fluminense, interior de Minas Gerais e Espírito Santo. Durante aproximadamente 150 anos os navios partiam do município, escoando açúcar, farinha de mandioca, charque bovino, madeiras-de-lei, derivados de leite, frutas, café, leguminosos e hortaliças para os portos de Salvador, Recife, Rio de Janeiro e Santos.

Toda essa movimentação transformou o município que atraiu empresários importantes com investimentos, especialmente, no ramo da construção naval. O município chegou a ter uma base industrial composta de seis estaleiros que movimentavam muitos trabalhadores e geravam riqueza para os empresários. Estes investiam na construção de suntuosos casarões e outras atividades culturais de forma a melhor usufruir de todo status, próprio do presente surto de prosperidade, enquanto a massa de salários incrementava o comércio local e regional.

A cidade experimentou um importante crescimento econômico durante o período de 1740 a 1880 e o conseqüente declínio no final do século XIX. A crise nos engenhos em função da queda da oferta de trabalho escravo, a abertura do canal Campos Macaé, a liberação da navegação de cabotagem aos barcos de bandeira estrangeira e a chegada da estrada de ferro, representaram elementos importantes no processo de perda do poder competitivo do transporte de cabotagem, desmontando toda a estrutura industrial que como alternativa de sobrevivência foi conduzida para o Rio de Janeiro, deixando para trás um ambiente decadente de pobreza. No século XX, a cana-de-açúcar em decadência e a fábrica de bebidas, iniciado nos primeiros anos do século, evitaram o pior.

Algumas considerações sobre a decadência da estrutura portuária do município levam a importantes questões de ordem econômica, como: a falta de investimentos para inibir problemas relativos ao assoreamento no Rio Paraíba; condições inadequadas de armazenamento dos produtos; custo elevado do frete e baixa produtividade operacional; e questões de ordem não econômicas, como: interferência política na indicação profissional sem a adequada qualificação e uma postura de acomodação da sociedade local frente ao desmanche da estrutura industrial. Um outro elemento importante relaciona-se a não internalização sistematizada e com resultados econômicos do conhecimento específico da construção naval pelas gerações seguintes.

Considerando o aspecto temporal e, naturalmente, a evolução tecnológica nesses duzentos e cinqüenta anos, dentre os modernos gargalos competitivos, o relacionado ao escoamento de produtos em direção aos mercados mais importantes, continua sendo uma fonte de problemas. Os portos brasileiros compõem o chamado “Custo Brasil”, fator que inibe o avanço do comércio internacional e tira a competitividade de setores importantes da economia brasileira, pressionando o emprego e a renda interna.

Neste cenário, o município volta a se habilitar como base logística para o escoamento de minério de ferro de Minas Gerais e outros produtos de qualquer parte, já que apresenta condições de viabilidade técnica e competitiva perante os portos mais importante do país. A presente estrutura logística, construída numa retro área com acesso ao oceano Atlântico, poderá atrair diferentes aglomerações industriais em busca de vantagens competitivas.

Entretanto é essencial um melhor entendimento sobre a presente trajetória histórica, de forma a auxiliar no processo de fortalecimento do espaço sócio-territorial para uma melhor inserção socioeconômica. Desta maneira, podem-se inibir os riscos e as externalidades negativas oriundas do primeiro ciclo econômico.

Comentários

  1. Parabéns, mais uma vez, pelo levantamento histórico local, prof. Alcimar!

    Só um lembrete para colaborar: a construção da ferrovia Campos-Macaé também contribuíu para a perda de competitividade do porto de São João da Barra, no escoamento da produção da indústria canavieira da região (açúcar e cachaça), naquele período.

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  2. Sem dúvida, a indústria canavieira tinha um papel relevante na economia regional e viabilizava operacionalmente o porto em São João da Barra. As dificuldades relacionadas a oferta de mão-de-obra nesta atividade e a chegada da linha férrea com custos muito reduzido, determinaram a morte da estrutura portuária nesta cidade.

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